sábado, 17 de fevereiro de 2007
Things You Said
quarta-feira, 6 de dezembro de 2006
A bela Benzodiazepina e a Ansiedade
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
Caminho
quarta-feira, 8 de novembro de 2006
O Amor, prazer diabólico?
Por vezes, num registo muito próximo, o fascínio por alguém pode, por vezes, suscitar uma repulsa não menos forte. Por haver uma atracção muito grande por uma pessoa ou por um tipo de amor, tem-se então tendência, sob a influência deste género de medo, para repelir a situação ou o objecto da atracção.
Aquilo que é temido atrai-nos, contém um sortilégio! No âmago do medo que sentimos por uma pessoa e ou relação, existe uma atracção tão forte quanto combativa. A ambivalência que faz com que nos preocupemos com essa pessoa, que pensemos nela, mesmo que seja de uma maneira que nos assusta, coloca-nos no limiar ténue entre o medo e o prazer. As pessoas, na realidade, gostam de sentir medo, porque o medo não é puro sofrimento. Ele é um meio tranquilizador e desculpabilizador de flirtar com os próprios instintos agressivos e de desconfiança, caso nos identifiquemos como vítimas, ou ao contrário de vergonha e culpabilidade. Há portanto um prazer, difícil de qualificar que acompanha o medo.Um prazer que surge devido à presença de desejos contrários. Esta forma de medo, o fascínio-repulsa, explica-se pelo facto de o indivíduo ser irresistivelmente atraído pela relação e pela pessoa, pelo facto de a força de atracção ser tão forte e tão intensa que ele não cessa de pensar nela, mas que, por outro lado, precisamente este magnetismo, o faz sentir um medo, que raia o pânico, de se entregar e de confessar, a si mesmo e ao outro, esse amor de que se receia os estragos. Não se permite sequer que o outro nos toque. Pode até chegar-se a imaginar... o desaparecimento do outro.
Frequentemente este medo, o fascínio-repulsa, é vivido sem ser claramente identificado. Ele age então para além do conhecimento do indivíduo e orienta a sua vida sem que disso se aperceba. Assim, indirectamente, atribuímos um «carácter diabólico» ao outro, ou ao amor, para arranjarmos uma boa desculpa para não nos aproximarmos mais dele.
O amor comporta movimentos de oscilação entre duas tendências contraditórias, que levam alternadamente, a uma aproximação e a um afastamento. O que é excessivo neste medo é as duas pressões serem simultâneas, e daí sentir-se mal-estar e tensão. O medo de ser arrastado não se sabe até onde por uma relação que nos faz desejar abandonar-nos... ou fugirmos, pode chegar a gerar o conflito fazendo a pessoa armar-se de uma bateria de argumentos ora contra ora a favor dessa relação. Este medo de estar demasiado perto do outro, de se deixar tragar pela relação, de já não conseguir existir por si mesmo, de se sentir invadido, é em todo o caso medo de se prender num amor que já foi desiludido, aquele: -sim aquele!- da mãe e do filho.
quinta-feira, 8 de junho de 2006
A fuga
A cultura actual favorece a abertura para com os outros e o diálogo, ninguém dirá o contrário. Aspira-se a uma comunicação sem constrangimento. Mas todos nós verificamos dia a dia o quanto se está longe deste ideal de comunicação e transparência. No campo do amor então, algumas pessoas longe estão desta capacidade de comunicar e falar de si próprios. A comunicação no amor é muitas vezes ambígua e confusa. Muita vezes se diz uma coisa quando se queria dar a entender outra. Sendo preciso que os intervenientes estejam sintonizados no mesmo comprimento de onda, para que se entendam. Ou seja, terem energia semelhante. Muitas vezes acontece um dos intervenientes ter um abaixamento de energia e a comunicação se perder.
Tornar-se subitamente surdo-mudo parece ser a estratégia daqueles que decidiram não arriscar a pele e a identidade na lotaria do amor. Ou então, aceitaram jogar o jogo, mas utilizando certas defesas que consideram necessárias ao seu bem estar e ao seu equilíbrio. Estas defesas raramente utilizam esse nome. Muitas vezes são transformadas em acusações proferidas sem qualquer rodeio: "És demasiado invasor", "Não estou habituado a falar com ninguém de mim próprio", "Exiges demasiado", "Estou na minha bolha e ninguém entra!", "ring ring ring..........". Tantas frases que soam a avisos. "Até aqui, mas não mais longe" proclamam certos gestos, certas frases que indicam ao outro que para lá dessa fronteira qualquer intervenção poderia ser considerada um assalto à mão armada. Mas no fundo qualquer que seja a relação, age sempre sobre a personalidade de cada um, e por vezes em profundidade. Essas mudanças, algumas vezes, assustam e podem dar origem a interrupções no processo evolutivo ou pior a retrocessos saudossistas daquilo que éramos e já não somos. Sobretudo se se quer manter uma imagem de si próprio a tudo o custo que está longe da realidade. Exigindo um esforço energético suplementar e o aumentar das barreiras defensivas. As medidas que alguns tomam para se precaverem contra eventuais assaltos do amor parecem no entanto ser tão insuficientes quanto inadaptadas. As barreiras nem sempre se mantêm de pé; em compensação é raro elas não suscitarem conflitos.
À primeira vista, um sistema de defesa bem montado é tranquilizador, se bem que na realidade torne as pessoas mais ansiosas e frágeis. Com efeito, estando dependente do medo, a defesa não pode constituir uma força senão perante uma aproximação superficial. Um segundo olhar revela que se trata de um organismo fragilizado que consagra grande parte da sua energia a proteger-se.
Contra o amor só existem linhas de defesa ilusórias. As barreiras mais fortes desafiam muito simplesmente assaltos mais poderosos.
Convêm não esquecer que um sistema de defesa é uma confissão de fraqueza que, de resto, na maioria das vezes, é compreendida como tal pelos outros. Quando o amor se tem de inserir num quadro rígido, quando o outro tem direito a um espaço bem delimitado e a uma disponibilidade medida a conta gotas, quando a relação não deixa espaço algum à improvisação ou a um certo deixa-andar, e quando essa disposição frusta um dos parceiros, a guerra de trincheiras está á vista.
A reserva não é forçosamente sinónimo de dessinterese. Ela expressa com muita frequência o medo de se comprometer, de comprometer uma parte de si ao confiá-la ao outro. É mesmo aí que as defesas se mostram ineficazes, na medida em que são fácilmente assinaláveis pelo outro. Em vez de trazerem segurança ao garantirem um mínimo de vida pessoal e de identidade, aumentam o medo, sobretudo quando elas próprias são contestadas e estão em perigo. É nesta altura que é preciso puxar da caixa dos primeiros-socorros. Mas, a situação nem sempre se saneia sem alguns estragos! Muitas vezes a própria amizade entre os parceiros fica debilitada e corre risco de extinção.
terça-feira, 30 de maio de 2006
O medo do grande amor
Alguns apaixonam-se pela alma irmã encontrada casualmente, tropeçando nesse amor que tanto desejavam...
Se bem que os grandes amores, plenos de fascínio, sejam na maior parte das vezes difíceis ou contrariados, continuam a representar a consumação de um destino, a meta da existência. Ao lado desse amor tudo parece baço, inconsistente.
O fantasma do grande amor é estimulante. O medo que ele suscita, assume formas diferentes e orienta uma boa parte dos comportamentos amorosos. Este medo encontra-se escondido tão fundo, que são numerosos aqueles que declaram peremptoriamente não estarem interessados no amor ou, pelo menos, já não o estarem. É que este medo vai acumular-se a outras angústias, geradas ao longo de experiências passadas, e às quais ele se une para formar um bloco.
O apelo do amor, contudo, é tenaz. Ainda que recalcado, manifestar-se-á sob diversas formas, e, por vezes, até mesmo sem o conhecimento do interessado. A manutenção de uma relação que permita ao outro ansiar por um encontro excepcional, um gosto pronunciado por uma certa literatura romanesca, as censuras dirigidas ao companheiro, por vezes de modo repetitivo, o desejo ansioso de multiplicar as conquistas, uma agressividade acentuada no campo sexual, um estado de insatisfação mais ou menos ostensivo são, quanto mais não seja, formas negativas que esse instinto toma para exprimir quando o "acesso directo" ao grande amor se encontra bloqueado.
Porquê?
Porque, na verdade, todas essas situações advêm de uma atitude ambígua: por um lado, somos estimulados pelo desejo muito profundo de estabelecer com outro uma verdadeira relação amorosa, enquanto, por outro lado, o medo de falhar dissuade todo o comportamento que permitiria obter essa relação. Esse vaivém entre o "eu quero" e o "eu não quero" é frequentemente a causa do mal-estar experimentado na relação amorosa. Contudo, encontra-se em jogo qualquer coisa essencial de que fingimos desinteressar-nos. A parada, todavia, é demasiado alta para ser tomada de ânimo leve, visto que se trata, afinal de contas, do equilíbrio da nossa vida. Se raramente acontece morrer-se de amor, essa ideia não deixa de absorver com frequência uma boa parte da nossa energia e dos nossos sonhos.
Como explicar a dificuldade de amar e de se abandonar a uma relação amorosa franca?
Todo este oscilar entre o "sim" e o "não" alimenta a dificuldade de amar, e é a causa de numerosos mal-entendidos e de esgotantes tangos: atraímos o outro e rejeitamo-lo, aproximamo-nos dele e afastamo-nos. Esta "dança" é vivida por muita gente. Alguns vivem simultaneamente o desejo de agradar e de amar e o medo de ser tragado ou de se perder (ARIADNE!!! Onde está o fio? bolas estou todo enleado). Ou alternam períodos de paixão com momentos de repouso. A latência pode durar anos e ser ocupada de forma bastante agradável com relações menos ardentes, ou muito simplesmente com uma actividade profissional ou com amigos. Há até os novos casanovas cibernéticos...
Nem todas as pessoas estão prontas para viverem um mesmo tipo de amor, tem a ver com a evolução. Certas épocas priveligiaram formas de se relacionar que imortalizaram poemas e romances. Aquilo que era apreciado numa época podia ser perseguido numa outra. A Grécia antiga, por exemplo, valorizava a homossexualidade e fez dela a única forma de relação amorosa exemplar, tendo as práticas heterossexuais meramente uma função social reprodutora claramente dissociada do amor. Enfim, cada época criou modas que influenciaram os costumes. Mais proximo da nossa época, após a revolução sexual dos anos 60, facilitaram-se e desdramatizaram-se as relações íntimas, mas também se diminuiu a importância do amor. A instabilidade das uniões e a valorização de comportamentos amorosos mais efémeros, orientados para a camaradagem e para a satisfação sexual em si mesma (ter um caso, uma aventura, um flirt) desferiram um rude golpe no Grande Amor. Hoje é mais fácil manter relações com múltiplos parceiros, em contrapartida, é também mais fácil deixar passar ao lado do Grande Amor.
Compreende-se o medo que alguns têm de se queimarem e o medo de não suscitarem mais do que chamas ou faíscas sem brasa. Todavia, quando este medo se torna demasiado invasor extingue uma dimensão essencial do ser humano. Então, a vida encontra-se num outro lugar, mas já não existe no aqui e agora, (gera o síndroma de avestruz ou o efeito surdo-mudo). Já não ousamos entregar-nos, abandonar-nos, porque isso implica deixarmos cair a nossa carapaça, e, o que é mais inquietante, deixarmos o outro entrar na nossa vida.
Mas... o amor será sempre o amor! E amar não acaba...
sexta-feira, 26 de maio de 2006
Inundação Emocional
O medo e a ira.
O tálamo envia as informações que chegam ao cérebro, quer para o córtex, quer para as amígdalas límbicas. Como o caminho para estas é mais rápido (um só neurónio enquanto para o córtex a informação passa por vários neurónios e feixes), as amígdalas examinam em primeira mão os sinais exteriores. Se não constituírem sinal de alerta, a amígdala não toma qualquer acção e o córtex responderá a seu tempo. Se, pelo contrário, esses sinais parecerem de alerta, as amígdalas límbicas activam, dirigem e controlam todo o corpo (desencadeiam emoções básicas de medo ou ira).
Para tal, libertam umas substâncias, as catecolaminas, para a circulação sanguínea e alteram o estado fisiológico geral: o ritmo cardio-respiratório, a sudação, a dilatação pupilar, a tensão muscular e sua distribuição, etc. Preparam-nos para uma reacção do tipo fuga-ou-ataque, e, se tivermos possibilidade de reflectir sobre o que sentimos, este estado fisiológico alterado (resposta emocional) dará indicações a nível neural e químico que será lido pelo córtex como significando medo ou ira (sentimento).
Entretanto, as referidas substâncias são de dissipação lenta pelo que, mesmo que a reacção volte a ser controlada pelo córtex, as catecolaminas permanecem algum tempo no organismo e por isso estaremos mais vulneráveis a novas reacções emocionais de medo ou ira. Pode-se instalar um ciclo positivo de “mais catecolaminas a mais susceptível de alarme a mais reacções de alarme a mais catecolaminas ...”. Dizemos que estamos sob stress, que temos problemas psicossomáticos, ou que a criança pressionada ou maltratada é mais nervosa, receosa ou impulsiva, agressiva...
Voltemos à altura em que as amígdalas límbicas decidem dirigir a reacção de emergência, controlando todo o corpo, incluindo o córtex, pelo que as funções normais da razão podem ficar bloqueadas pela resposta emocional. Todos conhecemos os “bloqueios” que nos acontecem nas alturas menos próprias, como num exame escolar: é um bom exemplo deste fenómeno emocional denominado por “sequestro emocional”. Atendamos a que estados emocionais mais contínuos de medo ou ira podem representar sequestros emocionais mais ou menos contínuos e evidente prejuízo prolongado na aprendizagem escolar.
No entanto, é possível o controlo neuronal dos sequestros emocionais. Enquanto a amígdala límbica decide impulsivamente se deve iniciar uma resposta de alarme, o córtex pode levar mais tempo a analisar as informações mas fá-lo com muito mais dados e ponderação. Se a razão chegar à conclusão que a informação não representa a erradamente percebida situação de alerta ou que aquela reacção traz mais custos que benefícios, pode, através dos seus lóbulos pré-frontais, controlar a amígdala. Aparentemente, numa situação de sequestro emocional, estas áreas pré-frontais não ficam bloqueadas.
Uma aprendizagem útil será a educação destes lóbulos pré-frontais uma vez que são, no dia-a-dia, as áreas que permitem ponderar sobre as respostas emocionais, desencadeá-las e controlá-las, trabalhando em coordenação com as amígdalas límbicas e outros circuitos do cérebro emocional. Aqui o sentimento nasce do pensamento – pensamos antes de agir.
Eventualmente, poderá ocorrer outro fenómeno emocional neste centro: a “inundação emocional”. Imaginemos alguém inundado em pensamentos negativos recorrentes sobre determinado assunto: pensamentos que está só, que tudo corre mal, que estão todos contra si, etc, leva a sentimentos de melancolia, desesperança, desconfiança, etc. Se procurarmos entender as suas razões, são elas próprias que alimentam a inundação. A consciência estreita-se, centra-se e agudiza apenas algumas imagens, reacções, etc. (A. Damásio, 2001)



