domingo, 26 de novembro de 2006

Corned Beef e a cotação da alma humana


Parece que, quanto mais "civilizados" nos tornamos mais afastados estamos do humano. Há até quem considere os outros seres humanos como meros pedaços de carne. Não percebendo que ao tomar os outros como carne se está aumaticamente a considerar a si mesmo como carne em promoção. Aí vem à tona a ancestralidade do homem de caçador e colector. Há quem queira ser caçador de troféus julgando que isso o torna maior e mais grandioso e mais admirado, nem que seja por si mesmo e pelo seu ego diminuto. Há quem viva desprovido de emoções e se remeta ao instintos básicos comuns, chegando até ao desespero de ir com a gaja da portaria ou outra presa fácil, buscando-se na superficialidade dos sentidos. Há um afastamento do ser e do sentir. Por isso, há quem prefira viver uma vida inteira neste género de entorpecimento. Vivendo de ilusão em ilusão, negligenciando a sua essência. Diria até que se o Sócrates fosse vivo reformularia a sua frase para: "I FAKE, THEREFORE I AM!"

E assim vai a cotação da alma humana...

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Caminho

A vida não é como nós queremos que seja. A vida é como é. Assim como nós também não somos como gostaríamos de ser ou idealizamos que somos, e apenas somos como somos. Por muito que se lute e nos zanguemos com a vida e o universo, não passamos do que somos. Há pessoas que vivem uma vida inteira envergando a máscara do que gostariam de ser... pelo medo de dar parte de fracos e de serem vistos pelos outros desprotegidos, sem véus nem defesas. Mas aí sim se revela a grandiosidade do ser humano. Aí sim, se vai ao encontro da nossa essência. Aí sim, o caminho para a felicidade se abre para nós.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

O Amor, prazer diabólico?

Por vezes, num registo muito próximo, o fascínio por alguém pode, por vezes, suscitar uma repulsa não menos forte. Por haver uma atracção muito grande por uma pessoa ou por um tipo de amor, tem-se então tendência, sob a influência deste género de medo, para repelir a situação ou o objecto da atracção.

Aquilo que é temido atrai-nos, contém um sortilégio! No âmago do medo que sentimos por uma pessoa e ou relação, existe uma atracção tão forte quanto combativa. A ambivalência que faz com que nos preocupemos com essa pessoa, que pensemos nela, mesmo que seja de uma maneira que nos assusta, coloca-nos no limiar ténue entre o medo e o prazer. As pessoas, na realidade, gostam de sentir medo, porque o medo não é puro sofrimento. Ele é um meio tranquilizador e desculpabilizador de flirtar com os próprios instintos agressivos e de desconfiança, caso nos identifiquemos como vítimas, ou ao contrário de vergonha e culpabilidade. Há portanto um prazer, difícil de qualificar que acompanha o medo.Um prazer que surge devido à presença de desejos contrários. Esta forma de medo, o fascínio-repulsa, explica-se pelo facto de o indivíduo ser irresistivelmente atraído pela relação e pela pessoa, pelo facto de a força de atracção ser tão forte e tão intensa que ele não cessa de pensar nela, mas que, por outro lado, precisamente este magnetismo, o faz sentir um medo, que raia o pânico, de se entregar e de confessar, a si mesmo e ao outro, esse amor de que se receia os estragos. Não se permite sequer que o outro nos toque. Pode até chegar-se a imaginar... o desaparecimento do outro.

Frequentemente este medo, o fascínio-repulsa, é vivido sem ser claramente identificado. Ele age então para além do conhecimento do indivíduo e orienta a sua vida sem que disso se aperceba. Assim, indirectamente, atribuímos um «carácter diabólico» ao outro, ou ao amor, para arranjarmos uma boa desculpa para não nos aproximarmos mais dele.

O amor comporta movimentos de oscilação entre duas tendências contraditórias, que levam alternadamente, a uma aproximação e a um afastamento. O que é excessivo neste medo é as duas pressões serem simultâneas, e daí sentir-se mal-estar e tensão. O medo de ser arrastado não se sabe até onde por uma relação que nos faz desejar abandonar-nos... ou fugirmos, pode chegar a gerar o conflito fazendo a pessoa armar-se de uma bateria de argumentos ora contra ora a favor dessa relação. Este medo de estar demasiado perto do outro, de se deixar tragar pela relação, de já não conseguir existir por si mesmo, de se sentir invadido, é em todo o caso medo de se prender num amor que já foi desiludido, aquele: -sim aquele!- da mãe e do filho.