sábado, 10 de junho de 2006

quinta-feira, 8 de junho de 2006

A fuga


A cultura actual favorece a abertura para com os outros e o diálogo, ninguém dirá o contrário. Aspira-se a uma comunicação sem constrangimento. Mas todos nós verificamos dia a dia o quanto se está longe deste ideal de comunicação e transparência. No campo do amor então, algumas pessoas longe estão desta capacidade de comunicar e falar de si próprios. A comunicação no amor é muitas vezes ambígua e confusa. Muita vezes se diz uma coisa quando se queria dar a entender outra. Sendo preciso que os intervenientes estejam sintonizados no mesmo comprimento de onda, para que se entendam. Ou seja, terem energia semelhante. Muitas vezes acontece um dos intervenientes ter um abaixamento de energia e a comunicação se perder.
Tornar-se subitamente surdo-mudo parece ser a estratégia daqueles que decidiram não arriscar a pele e a identidade na lotaria do amor. Ou então, aceitaram jogar o jogo, mas utilizando certas defesas que consideram necessárias ao seu bem estar e ao seu equilíbrio. Estas defesas raramente utilizam esse nome. Muitas vezes são transformadas em acusações proferidas sem qualquer rodeio: "És demasiado invasor", "Não estou habituado a falar com ninguém de mim próprio", "Exiges demasiado", "Estou na minha bolha e ninguém entra!",  "ring ring ring..........". Tantas frases que soam a avisos. "Até aqui, mas não mais longe" proclamam certos gestos, certas frases que indicam ao outro que para lá dessa fronteira qualquer intervenção poderia ser considerada um assalto à mão armada. Mas no fundo qualquer que seja a relação, age sempre sobre a personalidade de cada um, e por vezes em profundidade. Essas mudanças, algumas vezes, assustam e podem dar origem a interrupções no processo evolutivo ou pior a retrocessos saudossistas daquilo que éramos e já não somos. Sobretudo se se quer manter uma imagem de si próprio a tudo o custo que está longe da realidade. Exigindo um esforço energético suplementar e o aumentar das barreiras defensivas. As medidas que alguns tomam para se precaverem contra eventuais assaltos do amor parecem no entanto ser tão insuficientes quanto inadaptadas. As barreiras nem sempre se mantêm de pé; em compensação é raro elas não suscitarem conflitos.
À primeira vista, um sistema de defesa bem montado é tranquilizador, se bem que na realidade torne as pessoas mais ansiosas e frágeis. Com efeito, estando dependente do medo, a defesa não pode constituir uma força senão perante uma aproximação superficial. Um segundo olhar revela que se trata de um organismo fragilizado que consagra grande parte da sua energia a proteger-se.
Contra o amor só existem linhas de defesa ilusórias. As barreiras mais fortes desafiam muito simplesmente assaltos mais poderosos.
Convêm não esquecer que um sistema de defesa é uma confissão de fraqueza que, de resto, na maioria das vezes, é compreendida como tal pelos outros. Quando o amor se tem de inserir num quadro rígido, quando o outro tem direito a um espaço bem delimitado e a uma disponibilidade medida a conta gotas, quando a relação não deixa espaço algum à improvisação ou a um certo deixa-andar, e quando essa disposição frusta um dos parceiros, a guerra de trincheiras está á vista.
A reserva não é forçosamente sinónimo de dessinterese. Ela expressa com muita frequência o medo de se comprometer, de comprometer uma parte de si ao confiá-la ao outro. É mesmo aí que as defesas se mostram ineficazes, na medida em que são fácilmente assinaláveis pelo outro. Em vez de trazerem segurança ao garantirem um mínimo de vida pessoal e de identidade, aumentam o medo, sobretudo quando elas próprias são contestadas e estão em perigo. É nesta altura que é preciso puxar da caixa dos primeiros-socorros. Mas, a situação nem sempre se saneia sem alguns estragos! Muitas vezes a própria amizade entre os parceiros fica debilitada e corre risco de extinção.